19 de ago de 2016

Ascensão interrompida

O ser humano tem um desejo natural de evoluir, de trocar o atual por um maior, mais potente ou mais bonito. Os equipamentos eletrônicos são as principais vítimas dessa "obsolescência desejada", parte por estarem defasados, parte por terem perdido o "brilho". Muitas pessoas acreditam que esse comportamento foi inventado pelo Capitalismo, mas é preciso considerar que as ferramentas utilizadas por nossos ancestrais evoluíram muito, embora sem a mesma velocidade de hoje.

Essa troca por algo melhor também existe no motociclismo. Hoje, quem tem uma Pop 100 sonha com uma Titan 150, e quem possui esta pensa em comprar uma CB 300R. As fábricas fazem uma "escadinha" por conta disso — e é algo benéfico do ponto de vista da segurança. Na linha Honda, depois da 300 tem a CB 500F, Hornet e CB 1000R, sem falar nas opções de outros estilos, como Transalp 700, Shadow 750, CBR 600R, VFR 1200F e Gold Wing 1800.

Contudo, essa ascensão nem sempre existe ou é longa como as fábricas de motos desejam. Em vez de passar de uma XRE 300 para uma CB 500X, a maioria dos jovens prefere ir a uma concessionária Fiat, por exemplo, e sair de Palio Way novo — por pressão da família ou desejo de mais segurança e conforto. O preço dos dois veículos são próximos e o carro tem uma série de vantagens óbvias, sendo a mais evidente agradar pais e mães.

Quase qualquer dono de Crypton sente necessidade de ir a uma concessionária Yamaha e apreciar Ténéré 250, XJ6 e MT-09, mas o jovem que vendeu sua XRE 300 não verá graça na concessionária Honda estando dentro de seu Palio Way com ar-condicionado e vidros escurecidos. Moto é estilo de vida, é verdade, mas para muitos motociclistas é estilo de vida passageiro.

O que segura grande parte dos motociclistas às suas motos é a falta de dinheiro para comprar e manter um carro e/ou a disponibilidade de transporte público eficiente. A questão financeira é a mais forte, mas também há outros fatores que levam as pessoas a desistirem do motociclismo, como o número de acidentes, a fragilidade da moto, o desconforto, calor, chuva... A desistência das mulheres é ainda mais precoce: muitas trocam a primeira moto por um carro assim que podem.

O mercado de motos de baixa cilindrada terá cerca de 90% do mercado enquanto o poder aquisitivo da população for baixo. Na medida em que a renda aumenta, jovens, mulheres e pais de família vendem suas motos para ocupar suas garagens com carros populares. As fábricas brasileiras já se preparam para isso e começaram a investir em segmentos mais altos, como o de maxi-scooters (como Burgman 400 e 650), nakeds urbanas (como MT-09) e aventureiras (Honda NC 700X). Tais segmentos são voltados às pessoas que desejam viver o motociclismo e podem garantir o faturamento do mercado em longo prazo.

A interrupção dessa ascensão é um movimento inversamente proporcional ao aumento do poder aquisitivo da população, da melhoria do transporte público e também às facilidades para aquisição de carros novos.