5 de dez de 2010

Teste do Kasinski Prima Electra 2000


Texto: Diego Menezes     Fotos: Cleison Menezes   -   Publicado originalmente em 5 de Dezembro de 2010

As crises do petróleo colocaram em questão a possibilidade do uso de energia elétrica em detrimento à gasolina, produzida a partir de um recurso não renovável. De quarenta anos para cá apareceram diversos projetos de veículos ecológicos, entre eles o Saturn EV1, da General Motors, protagonista do documentário Quem matou o carro elétrico?. Nenhum obteve sucesso por ter custo muito alto e estar restrito a pequenos grupos de usuários (eram vendidos apenas por leasing). A Kasinski quer mudar o rumo desse passado e oferecer motos e bicicletas elétricas à população brasileira.

O primeiro produto a iniciar o processo de massificação é o scooter Prima Electra 2000, que usa três baterias e tem um porte pequeno, ideal para iniciantes do motociclismo, especialmente aqueles que trabalham ou estudam não muito longe de casa, onde está o “posto de combustível”. O Electra é recarregado na tomada 110/220 doméstica ou em qualquer outro lugar que possua uma. De fato é uma conveniência que nenhum outro scooter oferece e isso o torna muito interessante do ponto de vista econômico – energia é mais barata – e ecológico.

Porte pequeno e design italiano

A tecnologia empregada no Prima foi desenvolvida pela Zongshen PEM Power Systems, divisão do grupo chinês sediada no Canadá. O motor de corrente contínua é um pequeno exemplar de 2000 watts instalado na pequena roda traseira de 10 polegadas. Não há, portanto, algum tipo de transmissão primária ou secundária. As três baterias de chumbo-ácido ligadas em série têm vida útil de 3000 ciclos, liberam 48 V e 36 Ah, são instaladas sob o banco e precisam de seis horas para receber carga completa. Tais baterias são obsoletas, pois já se usam em veículos elétricos baterias de íon de lítio e de hidreto metálico de níquel, ambas de maior densidade energética (menores volume e peso e maior quantidade de energia). O provável motivo da escolha da Kasinski pelas baterias tradicionais é o custo de fabricação e reposição, pois elas utilizam uma tecnologia amplamente conhecida. O motor instalado na roda parece uma idéia genial, mas sua eficiência jamais passa dos 85% porque ele tem que ficar num meio termo entre força e velocidade. A própria Zongshen já vende scooters com transmissão CVT, de eficiência maior que 95%. 

O motor, que não tem transmissão, fica na roda. O porta-objetos aloja as baterias o baú guarda as tralhas

A aparência do Prima Electra agradou todas as pessoas pesquisadas durante a avaliação. Algumas delas fizeram comentários a respeito do charme e da harmonia de suas linhas. E não poderia ser diferente. Os responsáveis pelo Prima são os designers italianos da Piaggio, que trataram de fazer traços que respeitaram cada parte do scooter, sem exagerar em algum ponto. Apesar de ser vendido como a versão ecológica do Prima 150, em comum com este o Electra tem apenas o farol, sendo o restante bem diferente. Na verdade, ele não é um produto exclusivo da Kasinski, pois a versão original é comercializada na China com um motor a combustão e a marca Piaggio. 



O desenho italiano é sempre bem-vindo, principalmente no Brasil, onde se dá muita importância para a beleza de um veículo. Mas o que realmente interessa num transporte de proposta ecológica é o seu comportamento no dia-a-dia. E foi isso que demos importância em nossa avaliação. Um ritual que o proprietário do Prima precisa se acostumar é o de colocá-lo para recarregar toda noite e desconectá-lo pela manhã, antes de sair, pois isso é importante para garantir uma viagem tranquila. Tirar o scooter da garagem empurrando é uma tarefa que exige força, afinal são 128 quilos. A dificuldade é só esta porque para dar inicio à viagem basta ligar a ignição, levantar o tripé e girar o punho direito. Engasgos iniciais são lendas que o Electra sequer conhece.

O arranque produz um leve ruído, bem característico de motores elétricos e que lembra uma pequena turbina. Depois de ganhar velocidade este ruído se torna imperceptível de tão baixo, mas outro se torna evidente: a tampa do baú fica batendo conforme a qualidade do pavimento e incomoda bastante, sobretudo aqueles que esperam silêncio total – esta é uma das propostas dos automóveis elétricos.

Amperímetro, Velocímetro e Voltímetro, que mostra a quantidade de carga da bateria

A quase total ausência de ronco é uma qualidade incontestável que, por outro lado, é também um temível problema. Os pedestres desatentos que mal observam a rua por onde atravessam são alvos certeiros do condutor do Prima, que precisa estar sempre atento e com o polegar próximo ao botão da buzina. A Kasinski deveria rever o posicionamento deste botão, pois ele está distante do dedo que o aciona. Em seu local habitual está um interruptor para escolher o modo de funcionamento do sistema de propulsão. Dentre as três posições é possível escolher o modo Econômico, com menor desempenho e maior autonomia; o Conforto, intermediário; e Esportivo, para maior desempenho, porém menor autonomia.



As respostas ao acelerador são sempre suaves e comedidas. Mesmo que gire o punho rapidamente, o condutor nunca precisará de força nas mãos para se manter no veículo. Em termos, o Prima Electra é um ciclomotor pelo tamanho e pela potência. No entanto, para ser taxado como tal seria necessário baixar sua velocidade máxima em 10 km/h (de 60 para 50), e assim poder entrar em conformidade com as exigências legais.

A aceleração linear é inerente ao funcionamento do motor elétrico, que tem torque constante em qualquer faixa de rotação. Ao arrancar percebe-se um som produzido pela unidade de 2000 watts (número equivalente a 2,75 cavalos), que "sofre" um pouco até ganhar velocidade. Em subidas ígremes o mesmo som torna-se evidente, sinal de que a ausência de um câmbio prejudica bastante o desempenho e força o motor.

O módulo do lado direito lembra um escapamento

Não é à toa que se diz que os veículos elétricos são mais "inteligentes". O Prima Electra só gasta potência enquanto precisa atingir ou manter a velocidade desejada pelo condutor. Enquanto se ganha velocidade, trafega por inclinação ou contra o vento, o ponteiro do Amperímetro, que fica à esquerda do velocímetro, mostra a quantidade de energia necessária para realizar o movimento. Nas descidas ou desacelerações ele mostra que o consumo é nulo. O Prima conta com um pequeno disco na dianteira e um tambor na traseira. Ambos poderiam ser mais eficientes, pois os quase 200 kg (scooter e condutor) são um grande problema na hora de parar. Um disco na traseira seria bem interessante.



Mesmo que não seja expoente em desempenho, o Electra diverte pela condução distinta. Guiá-lo é como andar de bicicleta sem pedalar ou, numa comparação melhor, dirigir com os ouvidos "desativados". Nele é possível ouvir melhor o que acontece ao redor, perceber a presença de outros veículos. A proposta de "limpar" a consciência funciona, sobretudo quando se está atrás de algum ônibus circular ou caminhão antigo. Nessas horas salta à memória a maior qualidade do Prima Electra 2000. 

Seletor de funcionamento

O botão seletor de desempenho é muito útil e muda completamente o desempenho e a economia de energia. No modo Econômico o ponteiro do Amperímetro, que mostra o consumo instantâneo, não passa de determinado ponto, mostrando que a potência está limitada para proporcionar maior autonomia. No extremo está o modo Esportivo, que libera toda a potência em detrimento ao tempo de uso. Definitivamente, rodovias  e cidades com ruas íngremes não são os lugares ideais para um veículo lento como Prima. Como todo scooter, o Prima é confortável e tem suspensões macias. Só não agradam os pneus pequenos que tornam a direção muito sensível e sofrem em obstáculos como os onipresentes tachões cearenses.

Disjuntor , estojo de ferramentas e fonte

A autonomia de 50 km ainda está aquém do necessário para rodar dias seguidos sem "ir ao posto". Mas é suficiente para o trajeto diário de muitas pessoas. O mais interessante do Prima é a possibilidade de "reabastecer" em casa, na tomada comum. Abaixo do banco fica, além do estojo de ferramentas, uma fonte 110/220 V > 48 V para ser ligada à tomada. O plugue, porém, tem o formato chinês, com duas chapinhas ao invés de pinos resistentes.

Três baterias em série. 3000 ciclos de vida

Por enquanto a Kasinski está se esbarrando em dois problemas que limitam as vendas do seu scooter elétrico. Um deles está relacionado à lei, que regulamenta o uso do Prima como motocicleta e não como ciclomotor (sendo o primeiro, exige CNH da categoria A e fica proibido de circular por ciclovias). Como sempre, o Brasil está atrasado na questão de veículos ecológicos e ainda não possui leis que regulamentam a classificação de carros e motos impulsionados por energia elétrica. Taxado como moto, o Prima recolhe IPVA (25% mais barato, como os carros movidos a GNV) e Seguro DPVAT como qualquer outro scooter com motor acima de 50 cm³, mesmo que tenha potência e velocidade limitadas. Essa é a prova da obsolescência da legislação brasileira.

Disjuntor de dois circuitos

Outro empecilho são os postos de abastecimento público, ainda inexistentes no país. A fábrica pretende montar vários deles com a ajuda da empresa portuguesa EDP, para atender quem precisa reabastecer as baterias enquanto passeia e quem mora em apartamento. No entanto, isso dependerá do sucesso dos outros produtos a ser comercializados.

Posto conceito da Kasinski

Apesar de limitado, o Prima Electra 2000 é um bom negócio do ponto de vista econômico. Tem bom acabamento (exceto no baú), farol eficiente, excelentes retrovisores e é confortável para cidades com relevo plano. Seu preço, cerca de R$ 5500, está coerente com a tecnologia. Esperamos que ele venda bem e mostre ao brasileiro que no futuro toda garagem deverá ter ao menos uma tomada. 

FICHA TÉCNICA

DIMENSÕES E PESO

Comprimento Total: 1750 mm
Largura Total: 665 mm
Altura Total1.110 mm
Distância entre eixos: 1230 mm
Distância livre do solo: 105 mm
Peso: 128 kg

MOTOR

Alimentação: Bateria de chumbo ácida 48 V / 36 Ah
Potência Máxima: 2000 W a qualquer rotação
Velocidade Máxima: 60 km/h
Autonomia: 50 km

ESTRUTURA / CHASSI

Roda: Liga de alumínio
Freio Dianteiro: Hidráulico a disco
Freio Traseiro: Tambor
Pneu Dianteiro: 100/80 - 10 50J
Pneu Traseiro: 120/70 - 10 56J

OUTRAS INFORMAÇÕES

Cores: Prata e Vermelha